domingo, 21 de fevereiro de 2010

Por que o medo?


Quanto medo, oh, quanta histeria!

Bilhões de medrosos, medo em vão.

Fraternidade Branca está até admirada,

Com o medo desse povão.

O pavor que a proximidade de 2012 está causando me faz ter dúvidas sobre o nível evolutivo da humanidade. Até parece que estamos o paleolítico, não no século XXI da era cristã.

Ninguém vai morrer, se não for a hora. O mundo só vai se acabar de rir da nossa idiotice. A única utilidade de livros e filmes apocalipiticos sobre o tema é garantir empregos para quem trabalha no ramo; talvez por isto eu deteste esse gênero.

Não há mistérios sobre 2012, há sim muita ignorância. Os povos que fizeram essas profecias simplesmente colocaram no papiro (ou na pedra, na casca de árvore, et cétera) o que já estava previsto. Estes povos, nestas épocas, foram a última leva de espíritos que puderam voltar para Capela, ou outro planeta que, na época, faria o nosso de hoje parecer devoniano. Eles recuperaram o paraíso perdido, por isto tiveram condições e acesso ao cronograma da Terra. Eles fizeram suas lições de casa, nós não, por isto ainda estamos aqui e vamos nos lascar bonitinho, mas não do jeito que o cinema faz parecer.

Acontece que a Terra tem seus ciclos e o actual já terminou. Mudanças climáticas estavam previstas, o que não significa que teremos inundações avassaladoras, ondas infernais de calor nem furacões que humilhariam qualquer outro que a humanidade já conheceu. Não senhor, as florestas que preservamos, os rios que protegemos e a camada de ozônio que deixamos intacta se encarregarão de deixar tudo mais agradável. Sim senhor, a nossa previdência e nossa consideração para com os outros nos renderá os frutos que merecemos. Fizemos um belo trabalho, não acham?

Desculpem o sarcasmo, mas nós estamos sofrendo e vamos sofrer ainda mais por nossa exclusiva culpa. Lembrem-se de que não chegamos hoje ao planeta, já estivemos nele em outros corpos. Tu, que hoje é um ecochiita doente, com certeza foi um madeireiro dos mais perversos e inescrupulosos, e agora está tentando a qualquer custo reparar seu erro. Mas não dá, benzinho, não desse jeito. Radicalismo de esquerda e radicalismo de direita são radicalismos do mesmo jeito, e foi com radicalismos de mentalidade que chegamos ao tricentésimo fundo de poço em que estamos. Radicalismo destrói, sempre.

Até a idade moderna ainda havia tempo para minimizar a situação. Poderíamos ter consumido recursos, mas sem desperdícios. Poderíamos ter empreitado expansões, mas não para escravizar. Poderíamos ter aplicado recursos nos avanços científicos, mas não para destruir. Poderíamos ter vivido até muito melhor do que vivemos, mas egoísmo é uma doença degenerativa da retina, nos deixa cegos se não for tratado. O problema é que o egoísmo refresca enquanto danifica, tal qual o morcego que abana enquanto lambe o sangue e passa raiva animal.

Mesmo com o passar do tempo, poderíamos ter amortecido os efeitos danosos, mas o apelo do prazer a todo custo foi mais sedutor. Apelo, alías, que nos degredou para cá.

Agora que dei a bronca, bando de covardões, vamos à boa notícia.
Passado o susto, quando todos saírem debaixo da cama e virem que o globo continua inteiro, as cousas tendem a voltar ao normal. Não o que nós chamamos de normal, mas ao verdadeiramente normal.

Começará a haver alterações genéticas, os sentidos que estavam suprimidos serão reactivados, como clarividência, clariaudiência, telepatia, memória de elefante, entre outros. Já há gente nascendo com os novos genes prontos, só aguardando para que entrem em ação. No início os primeiros despertos serão notícia, os jornais alardearão a proliferação de sensitivos, até todos perceberem que todos são sensitivos, que isto sim é absolutamente normal e que o estado anterior (o de hoje) era como uma cegueira de nascença, pela qual o indivíduo não consegue nem conceber a existência das formas, quanto mais de cores. Precisa dizer que advocacia e política nunca mais serão as mesmas?

É certo que as outras espécies também terão sua evolução acelerada. Muitas serão extintas, outras surgirão no lugar. Desde os século XIX os animais domesticados já nos captam as ondas mentais, e algumas dementais, não vai muito mais que um século adiante para que o sujeito conversando com seu cão deixe de ser visto como excentricidade. Roberto Carlos que o diga.

Também haverá uma queda drástica na nossa já baixa fertilidade, se compararmos com os outros animais, que têm seis filhotes de cada vez, brincando. Com efeito, a população vai se reduzir paulatinamente até estabilizar, não sei ainda quantos, mas sem dúvida seremos menos de um terço do que somos hoje. Com isto o mercado imobiliário terá que se adaptar muito rapidamente, pois as cidades vão se esvaziar. Terão forçosamente que oferecer imóveis maiores, quintais, áreas verdes e ainda manter (talvez reduzir) os preços, porque a demanda de hoje não existirá mais. Por maiores que sejam os novos imóveis, muitos espaços ociosos retornarão às mãos da União (no caso do Brasil) e terão uso público, como parques e bosques.

Vidências reactivadas mais vegetação em expansão, teremos de novo o contacto com os elementais. Aquele adesivo que diz "Eu acredito em gnomos" será igual a "Eu acredito na gravitação".

Vocês vão encontrar muitos espetáculos pela internet, gente anunciando as últimas unidades de lotes no céu, outros que tudo se reduzirá a nada, outros ainda tecendo comentários longos e acéfalos sobre o tema. Eu já disse e repito: Não acreditem em tudo o que lerem, ouvirem e (principalmente) virem. Há focos de informações confiáveis, mas são poucos. Não confiem na razão parca de que dispomos, se dêem tempo (ainda há, não se preocupem) e não acreditem em alarmistas. Quem vai ficar de fora da festa já está marcado e desesperado pela degredação iminente, o que não é o caso da imensa maioria.

Sejam bons, se preocupem com o próximo, ajudem uns aos outros, dê para ela o último biscoito do pacote, façam o que puderem do jeito de vocês. Não precisam mudar radicalmente suas vidas, porque para isto realmente não há mais tempo. O que tiver que acontecer de mais profundo, dificilmente se dará até 2012, mas se acontecer será um espetáculo e toda a Fraternidade Branca fará festa.

Vá passear, namore com juízo (mas namore), marque suas festinhas, se divirta, que quando chegar a hora de ir para casa, nossos tutores nos avisarão.

domingo, 8 de novembro de 2009

Dogma e religião

Aparentemente indissociáveis, são completamente incompatíveis. Não que não existam dogmas verdadeiros, eles existem, mas um dogma é uma verdade inquestionável, contra à qual nenhum argumento vigora. Todos os dogmas verdadeiros são preexistentes à humanidade, como a gravitação e o magnetismo.
Para ser inquestionável se necessita da perfeição, que está fora do alcance de qualquer criatura. Mesmo um Papa. Ainda que ele receba inspiração do alto, terá que interpretá-la, nisto vai usar os conceitos de que dispõe, que são humanos; falíveis.

É neste ponto que a maioria dos teístas e ateus erram crassamente, um tentando defender e o outro atacar as religiões, se baseando em seus dogmas. Tendo um dogma religioso sido erigido por homens, muitas vezes de coração duro, ele terá destes os conceitos pessoais de conduta sobre o qual se apoiará. Tal dogma terá sido, quase sempre, formulado para controlar um povo de tendências primitivas e altamente rebelde, não se aplicaria mais à maioria dos povos.

Analisar uma religião por dogmas é reduzí-la a um partido político. Quem o faz se esquece da verdadeira função da religiosidade, que é nos colocar de volta ao caminho do qual nossa rebeldia e orgulho exacerbados nos tiraram.

Para retomar o ponto de onde paramos, é necessário fazer o que se chama errôneamente de "pobreza de espírito". Não é pobreza, é desapego. Pobreza é escassez de recursos, ter menos do que se necessita para uma vida plena. Completamente fora de propósito. Para se retomar o caminho perdido é necessário não dar à matéria (nem a si mesmo) mais inportância do que realmente cabe. Nem menos. Para pessoas muito úteis, ser rico é uma necessidade, pois a abundância de recursos se justifica pelas obras que pratica. Ninguém que faça uso nobre de sua fortuna está privado das benesses celestes, muito pelo contrário.

Se apoiando em dogmas, teístas e ateus se apóiam em impressões humanas, muito susceptíveis à deturpação da conveniência de quem estiver no poder. Foi assim em Roma.

A bem da verdade, a maior parte da responsabilidade pela ploriferação dos ateus é dos próprios religiosos. Em vez de interagir com a essência doce e morna de sua religião, se entrega à dureza áspera e amarga de suas leis. Leis feitas (ou interpretadas) por homens, quase sempre carregadas de misoginia e etnocentrismos, muitas vezes feitas para manter intacta a situação que lhes parece mais confortável, confiando que "um dia" alguém encontrará um modo suave de reorganizar tudo. Até hoje a maioria dos povos espera que alguém no futuro o faça. Não hoje, sob hipótese alguma, seria escandaloso e imoral. Que moral. Para que serviria hoje? Quem freqüenta templos e pratica as regras de uma religião é, em sua imensa maioria, um prato feito e suculento para qualquer um com um pingo de cultura.

Regras são necessárias para nosso actual nível de evolução moral, mas só se aplicam ao nosso tempo, de modo algum podem resistir por mais de um século sem alterações. São regras humanas, aplicáveis à maioria dos humanos, na maioria dos lugares. Há humanos e lugares aos quais só causam problemas, mas sacerdotes e seguidores insistem em aplicar essas regras a todos, como se tivessem sido impostas pelo Altíssimo.

A fé não pode ser cega, pois é por ela que o religioso se guia. Lembram de alguém ter falado sobre cegos guiando cegos? Pois é assim que são aqueles que seguem os dogmas de uma religião sem olhar para os lados e sem se importar com as conseqüências de seu radicalismo.

Eu tenho fé. Sei no que acredito e porque acredito. Não é da conta de quase ninguém, pois é uma programação feita para mim, como minhas impressões digitais.

Quem disse que a fé deveria ser cega o fez por questões políticas, criando um dos dogmas mais nocivos da história da humanidade, pois acaba por louvar a ignorância. Então, mais uma vez, tenho que dar a mão á palmatória do ateu. A religião deveria alavancar nossa evolução, não atrasá-la.

Nós estamos atrasados, muito atrasados. Mundos que eram primitivos durante a nossa idade antiga, nos ultrapassaram em muito. Enquanto discutimos se isto é certo ou errado à luz da lei, eles simplesmente testam e estudam para colocar ou não em prática.

Na dúvida de minha mediocridade humana, sigo um único dogma. Não no sentido mundano e egoísta, que desvirtuou seu nome, confundindo-o com paixão: Só o amor vale à pena.

sábado, 5 de setembro de 2009

Judia na roda

Esther é a última convidada a falar. Foi uma semana inteira para os convidados explanarem sobre suas religiões, tirando dúvidas e quebrando mitos. Caprichosa ao extremo, se deu ao trabalho de redigir pequenos livretos sobre a Torat, feitos em papel-jornal, sucintos e objectivos.
É anunciada pela nova directora, pois a última pediu transferência após ter sido nocauteada em público pela judia, se levanta em seu longuete azul claro e vai à frente...
- Amigas, bom dia. É um prazer estar com vocês de novo, desta vez para um assunto tão aprazível e esclarecedor. Quero agradecer ao Padre Bernardino, ao Pastor Isidório, ao amigo Abdulah, à Monja Fuji e à directora, por terem contribuído para a boa formação moral dos meus filhos. Eu sou judia, minha família veio ao Brasil fugindo do nazismo. A precocidade da fuga permitiu que todos os documentos que juntamos nos últimos três séculos fossem salvos, e eu gostaria de dividir com vocês um pouco da sabedoria e das lições que meus antepassados transmitiram. Aliás, nossos antepassados, pois nossas religiões têm todas uma raiz comum e a minha trouxe à luz algumas das de vocês. Somos irmãos, então.
Despeja um pouco da imensa sabedoria que o estudo com afinco de suas tradições lhe deu. Inclui factos históricos já comprovados, mostrando que não é uma fanática que acredita que anjos caibam na Terra e percam seu tempo exterminando infiéis. Como Abdulah, mostra que a mulher é muito mais forte em seu meio do que o folclore cristão faz parecer...
- Nossa submissão não é ao marido, mas à nossa tradição, é ela quem nos guia os passos. Não uma castração, mas um porto seguro aonde vamos quando as tormentas deste mundo de provações ameaçam-nos com um naufrágio. Um judeu que se preze sabe quem realmente manda na casa.
- Você escolheu o seu marido?
- Escolhi. E o deixei de molho por uns meses até que demonstrasse respeito por mim... Casei cedo, às vésperas de fazer dezoito anos.
Esther, mãe de Sarah e Jacob, conhecida na comunidade como "A Dona de Casa", conduz placidamente a entrevista, conseguindo simpatia dos presentes para com o judaísmo e até confirmando convites para uma visita à sinagoga. Ninguém reconhece a pugilista de batom que desacordou a antecessora de Carolina. Mas quando o assunto é religião, sempre aparece uma serpente para contaminar o paraíso. Uma fiél da igreja "Deus é Só Meu e Ninguém Tasca" se manifesta, afirmando que vai tirar os filhos daquela escola de ímpios...
- Que absurdo é esse em falar que o Meu Senhor Jesus era judeu? Ele é o Deus vivo, o rei dos reis...
- Descendente directo de Davi. Ele escolheu nascer judeu, não existia cristianismo naquela época.
- Não, existiam as trevas, o reinado de Satanás. Vocês rejeitaram e mataram o Messias!
- Está parecendo daqueles jornalistas que falam de Israel e só soltam besteiras. Ele foi crucificado por uma elite que se rendeu à sedução de poder dos romanos. Pela coragem que teve em cutucar feridas publicamente, é sim digno de admiração e respeito. Ele estudou a Torat, (com toda aquela sabedoria) a Kabbalah e conhecia nossas tradições como o judeu que escolheu ser.
A fanática solta uma gargalhada que ressona por todo o ginásio, não só isto, fica claro que não são risos de ironia ou humor, mas risos nervosos de ódio incontido. Fica claro que só não investe contra Esther porque sabe que apanharia. Ela começa a declamar o velho testamento de frente para trás, de trás para frente, da direita para a esquerda e vice-versa. Não que saiba o que significa a maioria das palavras, apenas memorizou sistematicamente...
- Você gosta do Velho Testamento?
- Eu amo a Palavra do Senhor, é minha muleta, meu amparo, meu abrigo...
- Então você gosta um pouco do judaísmo. O Velho Testamento foi todo tirado da Torat. Tudo o que você disse eu aprendi no idioma original, sem distorções e perdas por traduções sucessivas, em hebraico. Por exemplo, Eva não foi nasceu da costela, os dois eram unidos pela costela e foram separados. Vocês não devem levar ao pé da letra um documento redigido ao longo de milênios, rico em entrelinhas e com passagens que só os sacerdotes mais preparados estão aptos a compreender. Toda a alegoria da Gênesis é uma lição de maturidade para a vida, não um relato histórico e histérico de um deus rancoroso que dá as costas pela primeira falha de seus filhos. Ele sabe que somos falhos, não exigiria santidade de quem mal sabe raciocinar e amar menos ainda.
A fanática faz uma cara de desprezo, sem esconder que ferve por dentro, apontando-lhe o dedo...


- Eu serei recebida com honras de rainha, pelos anjos. Do meu trono, no céu, eu rirei vendo você ser queimada e atormentada no inferno.
- Você já está no inferno.
- Ra, ra, ra, ra, ra, ra, ra, ra, ra, ra, ra, ra, ra, ra, ra, ra, ra, ra, ra, ra! Eu sou eleita, eu tenho direito de decidir quem vem comigo ou não para o céu, e você não vai.
- Lamento informar, eu já estou no céu, você já está no seu próprio inferno.
- Eu sou abençoada, tenho carro novo, casa grande, fiscal nenhum me enche o saco, sou amiga de políticos...
- E depois vocês se perguntam porque existem tantos ateus no mundo. Jesus não admitiu que os apóstolos sonegassem, tanto que ajudou Pedro a pagar o imposto. Agora compreendo quais são suas motivações e porque seu marido pediu o divórcio.
Ela emudece, faz uma repentina gritaria como se estivesse na igreja e sai jurando vingança santa. Esther se vira para os presentes, lamenta o ocorrido e continua, sendo interpelada pela directora...
- Então isso é ser judia? Você estava muito segura do que disse, deu uma demonstração de cultura e domínio de causa fantástico.
- É obrigação de um judeu ter consciência do que é. Eu tenho uma visão clara do mundo e do meu mundo. Eu acredito na minha religião, vivo o judaismo, mesmo quando passamos por uma crise que quase custou o meu casamento. Vejo que não dá mais tempo para dizer tudo o que pretendia, mas trouxe uma Torat em português, bem resumida e comentada para quem se interessar.
É necessário fazer um sorteio que agracia uma aluna atéia. Mas antes de encerrar, pedem que explique o que quis dizer, embora alguns façam uma boa idéia, com ela já estar no céu e a outra no inferno...
- Nós temos livre arbítrio. Ninguém te manda para lugar nenhum, nós é que nos encaminhamos para lá. Ninguém com o coração corrompido atravessa sequer a calçada para o portão celeste, não importa quanto conhecimento teórico tenha e o quanto se destaque em um templo, porque o templo que interessa é justo aquele que aquela senhora desdenhou. Se eu for chamada hoje, vou sem arrependimentos, estou ciente de que tudo o que está ao meu alcance eu faço; edifico o meu lar todos os dias; disponibilizo algumas horas do meu dia por gente que talvez eu nem conheça, e levo meus filhos para que também ajudem; busco ser melhor a cada dia, rogo que Jeovah releve minhas muitas faltas e me ajude a repará-las. Minha família é tremendamente estável, passamos por crises sem desagregação, sem perda de respeito. Eu sou feliz não pela glória de ter sobrevivido ao que nos acometeu, mas apesar do que nos acometeu. Isto, uma vez aprendido, se torna parte de você e ninguém lhe toma. Isto é o céu. Agora vamos, que a Mirtes já nos chama.
Como dona de casa exemplar, Esther trouxe os quitutes de seu próprio forno para a reunião.

sábado, 15 de agosto de 2009

Hebreus assando


Vocês já devem ter se perguntando porque Deus mandou os hebreus caminharem por quarenta anos no deserto, em vez de manda-los miraculosamente para um lugar decente. Se nunca se perguntaram, então são bruxos muito mixurucas. Mas levantei a questão e agora a dúvida foi suscitada.

Para quem chegou agora ao clube, existe algo chamado forma-pensamento. Trata-se, por assim dizer, de uma emanação que uma pessoa gera quando pensa. Pensamentos não são abstratos, eles produzem efeitos profundos no cérebro e outros ainda maiores no plano astral. Quando alguém pensa na Ana Paula Arósio, uma entidade pelo menos assemelhada se forma em algum lugar, ligando o pensador à moça. Quase sempre a forma-pensamento é efêmera, pois quase todos os pensamentos são logo esquecidos. sem pensamentos para alimentá-la, a forma-pensamento se dissolve, se não for engolida por um ibis.

Mas quando alguém pensa insistentemente na Ana Paula Arósio, se sonha com ela, projeta mil fantasias com ela durante muito tempo, então temos uma forma-pensamento que pode evoluir para uma larva astral. A larva astral tem a capacidade de buscar alimento, com isso pode obsediar o fã incauto e fazê-lo a pensar mais e mais na actriz, o que, convenhamos, não requer esforço algum. Sim, é por isto que certas pessoas não conseguem parar de pensar em algo ou alguém, também é por isto que vocês devem ter muito cuidado com seus pensamentos. Vocês devem controlá-los, vocês os criaram, vocês são os mestres, não troquem os papéis. O problema é que a maioria das pessoas não tem noção disso, e foi por isto que Moisés mandou todo mundo catar seus badulaques e ir passear no microondas de areia. Ele não estava sacaneando com os hebreus, ele os estava curando.

Esse povo magnífico, mas com um passado pra lá de beligerante, nutria sentimentos de rancor e vingança contra os egípcios. Lembremos do que eles mesmos escreveram no Velho Testamento, somos todos filhos do mesmo Pai/Mãe. Todos, inclusive o teu vizinho que torce para o Boca Júniors. Imagine a quantidade e força de formas-pensamentos e larvas astrais nutridas durante gerações inteiras por um povo inteiro. Decididamente, eles não poderiam ficar simplesmente livres no Egito, logo causariam problemas e poriam tudo a perder. Todo mundo para o deserto, onde o sol escaldante do dia, o frio kelviniano da noite, a fome, os esforços para vencer as areias e as perdas os fizeram pensar mais na própria sobrevivência e menos em esganar o faraó. Deu certo. Tanto que eles começaram a se revoltar contra Moisés, lembrando do tempo em que tinham pão e carne em abundância, o que era mentira, pois a comida racionada era um dos motivos do descontentamento no cativeiro. A radiação ultravioleta e a luz intensa deram cabo das formas-pensamento e das larvas astrais, que até tentaram, mas não conseguiram levar os hebreus de volta para o conforto do cárcere.

Vocês sabem (sabem, não sabem?) que um sonho dos hebreus sempre foi o Estado de Israel. Precisaram de milênios para conseguí-lo, mas conseguiram. Afinal era o desejo de uma nação, não de um indivíduo. Agora, se estão fazendo besteira, é outra história e eles terão que pagar por ela.

Pois, meus caros leitores, vocês podem fazer exactamente o mesmo, quando um pensamento maroto estiver lhes azucrinando as idéias, não lhes deixando tratar direito de seus assuntos. Com o sol a pino, passem um bloqueador na pele, uma roupa confortável (não curta, senão é queimadura na certa) um chapéu e vão caminhar sob o sol. Caminhem e deixem que esses pensamentos desobedientes torrem até serem reciclados. Na volta, esperem à sombra o corpo esfriar e tomem uma ducha fria. Vocês verão como faz efeito.

Não, não precisa caminhar por quarenta anos. Uma hora ou duas e o cabeção estará novo de novo. De preferência, caminhem por lugares aonde pouco vão, ajuda a ter pensamentos novos, apressando o enfraquecimento dos obsessores.

No caso de bruxos já com alguma experiência, e comprometidos a não fazer cocô com a magia, a fixação em um tema é até benéfico. Uma vez que o pensamento esteja son controle e as intenções sejam dignas da ajuda do alto, a forma pensamento gerada por alguns minutos de meditação por dia será útil, ajudará a te encaminhar para aquilo que precisas. Não necessáriamente o que desejas, que quase sempre é bobagem ligada ao ego. Ponham suas fichas no caminho do meio e apostem sem medo, as formas-pensamento te levarão para onde lhe for melhor, o que popde até coincidir com teus desejos, talvez até a Ana paula Arósio.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Semente de Mostarda

O que torna a semente de mostarda um exemplo tão notável para uma parábola?
Minúscula, a sementinha tem praticamente nenhum material à sua disposição, é frágil, fácil de ser danificada e esterilizada por incidentes e intempéries. Mas mesmo com esta aparente e imensa desvantagem, ela usa os recursos de que dispõe (ou seja, a terra e a água) para fazer o que precisa: Se transformar em árvore. Ela não questiona o que tem a fazer e não mede o tamanho da tarefa, ela literalmente transforma uma montanha em fonte de alimentação e sombra. O trabalho é lento, penoso, mas ela faz assim mesmo.

É assim que um milagre é operado. Não por pó de pirlim-pim-pim, mas pela conta dos recursos de que o próprio indivíduo dispõe.

É assim que a fé do tamanho de uma semente de mostarda, com seus miligramas, move uma montanha com suas mega toneladas. Não por agressão, não por imposição, mas a transformando por meios que qualquer um pode testemunhar. Basta ter paciência e atenção suficientes, nem precisa ver a transformação inteira para saber que ela será possível, logo nas primeiras safras de mostarda as alterações do relevo ao redor dirão o que acontecerá cedo ou tarde, mas de modo irrevogável. O trabalho é sutil e delicado, como se fosse uma bailarina.

Dizer que aqueles miligramas podem mover milhões de toneladas, mostra também a hierarquia do espírito diante da matéria. É como um general competente e bem assessorado comandando milhões de soldados capazes, mas obtusos. E é esta a posição do bem diante do mal. Se o bem se mover, o mal se afastará e até mesmo se converterá, porque não terá escolha. Um bom exemplo é a energia nuclear. Qualquer um que não tenha dormido nas aulas de física do antigo segundo grau sabe o que um quilo de matéria pode fazer, quando se transforma em energia. E afirmo que a energia obtida ainda assim é insignificante diante do espírito. Imaginem o que um quilo de espírito pode fazer.

Mas para que teu espírito trabalhe e se transforme de tal maneira, é necessário que lhe dê terra fértil, não precisa ser muito fértil, e que cuide de seu crescimento como um bom lavrador cuida de seu pomar.

A sutileza é que as sementes a que me refiro têm livre arbítrio, nem sempre germinam e crescem a contento, também nem sempre produzem como poderiam. felizmente o Bom Lavrador e o Bom Pastor são a mesma pessoa. Ele jamais desiste. Ele nos dará todas as condições para que cresçamos e frutifiquemos, e um dia teremos de volta a grória perdida de Capela. É um caminho sem volta.

sábado, 6 de junho de 2009

O Poder do Mito*

* alusão ao livro homônimo de Joseph Campbell

Terapia algumas vezes pode ser algo desagradável. Você se depara com partes da sua personalidade que nem sabia existirem. Se depara com seu próprio Ego. Com quem você realmente é.

Meu terapeuta, graças à Deus, além de estudante de temas espiritualistas, é um seguidor apaixonado de Carl Gustav Jung, que é, para mim, o maior expoente de todos na História da Psicologia.

Um dos pontos mais importantes na teoria de Jung é a comparação com os mitos, com as estórias (hoje consideradas mera ficção) antigas, que em seu lado mais profundo, nos revelam à nós mesmos.

Como dizia a inscrição na entrada do Oráculo de Delfos, "conhece-te a ti mesmo".

Esse é o poder do mito. Mostrar a você quem você realmente é, e o que realmente faz.

Semanas atrás, meu terapeuta indicou que eu estudasse o mito da Caixa de Pandora.

E como foi assustador entender que minha ex-esposa era a minha Pandora, eu era Epimeteu, que sem pensar, a desposei. E ela abriu a caixa da minha vida, e permitiu que de lá saissem tantas coisas, tantas mágoas, tanta dor, tanta tribulação. E ela prendeu na caixa, que carregou consigo, toda a minha esperança. Mas a esperança seria sofrimento? Segundo Nietzsche, sim.

Ou quando ele me pediu pra estudar o mito de Narciso. Seria eu um narcisista? E qual foi a dor de entender que sim... Que eu procuro um herói fora de mim, uma auto-imagem externa. Me prendo à algo que deveria estar dentro de mim, e SABIDAMENTE dentro de mim, mas procuro isso fora. E contemplo essa imagem de fora, e me perco esquecendo de viver o presente, o que me cerca.

E agora, ele me pede pra estudar o mito de Sansão e Dalila. Entendendo que eu sou Sansão, me entregando ao orgulho dos meus "cabelos", e pondo neles a crença da minha força. E Dalila, o medo que sinto. Me tira o orgulho, me tira os "cabelos", e me mostra o quanto sou fraco. Mas tenho que me humilhar perante Deus, e tirar d'Ele a força pra continuar, e romper os pilares do templo dos meus inimigos.

Mas o meu inimigo maior sou eu mesmo.

E nesse confronto, quem tem força suficiente pra suportar, ou vencer?

Enquanto não sei a resposta, aguardo o próximo mito para estudar. E me entender. E quem sabe, um dia, com as bençãos do Pai, me vencer...



Ou tentar um empate...

quinta-feira, 4 de junho de 2009

É difícil conversar com pessoas com as quais jamais encontrei, cujos rostos jamais vi se mexendo e cujas vozes jamais ouvi.
Há uns anos eu não me importava com isto, mas no último lustro minha vida virou pelo avesso, ou talvez tenha virado para o lado certo, pois escapei de me tornar ateu; isto sem ter que encher bolsos de um espertalhão, foi por conta própria.
Hora me xingando, hora me agradecendo, as pessoas começaram a desabafar comigo (logo comigo!) e contar detalhes de suas vidas.
Pode parecer banal, na maioria das vezes é, mas nestes melindres que é a vida eu já peguei gente desesperada. Uma tentou suicídio, outro conseguiu. A que tentou só agora, ano e meio depois, começa a se recuperar e reavivar sua chama. Ela e tantas outras pessoas passaram pela minha caixa de mensagens, ás vezes mudando de e-mail e usando pseudônimos, algumas sem a mínima noção desapareceram rapidamente.
Houve gente precisando do meu ombro, justo quando eu mesmo mais precisava de um. Eu, que cheguei a me preparar espiritualmente para a clausura, precisei atender a até sete cartas electrônicas por dia. Não simples cartinhas de "Oi, blz", mas mensagens densas, do tipo que se deve ler duas, três, quantas vezes forem necessárias para saber o que dizer à pessoa.
Ainda hoje sou um homem recluso e prezo a discrição, tenho quase que phobia pela notoriedade. Mas hoje sou blogueiro e há pessoas que pedem para eu falar de alguns assuntos.
É um dharma que conquisto, é certo, mas também é certo de que se trata de um trabalho tremendamente perigoso. Como transportar um coração de cristal fino para transplante; preciso ser ágil para chegar a tempo, mas cuidadoso o bastante para evitar a mínima trinca, ou o paciente padece.
Para vocês que já riram de alguns dos meus textos, digo algo que Hollywood descobriu há décadas: O palhaço é um homem triste, é o sujeito mais taciturno e retraído do mundo. É fácil para ele fazer rir, arrancar um riso dele são outros quinhentos. O pior é que nem sempre ele está disposto a fazer graça, como o cirurgião nem sempre está no melhor de sua coordenação. Mas quando a emergência se apresenta não há jeito, ele tem que pintar o rosto, subir ao palco e cordializar suas entranhas para fazer rir. Ainda que lhe custe uma lágrima. Muitas vezes custa.
Não reclamo, longe disso. Este nem deveria ser um texto tão denso, deveria ser apenas um tapa buraco para evitar um hiato muito grande até o próximo colega publicar. Mas foi o que saiu.
Hoje me escrevem bem menos, acredito que já cumpri com minha missão para com a maioria, da mesma forma alguns permanecem e outros chegam. É duro ter a vida alheia aos seus olhos, quando a tua mesma está complicada, mas não sei se eu compreenderia bem a dor do outro se estivesse escrevendo de um Apple com inernet sem fio de banda larga, em um chalé em Campos do Jordão. Talvez agora eu pudesse me dar este suporte, se a grana sobrasse para tanto, mas não sei se há cinco anos seria assim.
Não reclamo. Podem vir quantos precisarem, não estou no mundo a passeio e não será agora que vou enforcar o serviço.


P.S: Texto originalmente publicado no Talicoisa, trazido para cá a pedido do Filho de Oxóssi.